Repare na fachada à sua frente: centenas de pedras talhadas em forma de ponta de diamante. Os lisboetas não complicaram o batismo: é a casa dos bicos.
1Uma casa italiana paga pela Índia
Quem mandou construí-la, em 1523, foi Brás de Albuquerque, filho de Afonso de Albuquerque, o governador que consolidou o poder português no oceano Índico. Brás tinha viajado pela Itália, e a fachada lembra palácios renascentistas como o dos Diamantes, em Ferrara. Mas esta casa é menor e mais caprichosa: portas e janelas se espalham sem simetria, ao gosto do dono.
Quando foi erguido, o prédio ficava quase na beira da água: a margem do Tejo era muito mais próxima do que hoje.
2O que o terremoto levou
O terremoto de 1755 derrubou os dois andares de cima. Durante dois séculos a casa continuou de pé, mutilada, e chegou a servir de armazém de bacalhau, muito a propósito na Rua dos Bacalhoeiros. Em 1983, por ocasião de uma grande exposição europeia de arte e ciência, os andares perdidos foram reconstruídos. As escavações daqueles anos revelaram um trecho da muralha do período islâmico e tanques romanos de salga de peixe.
Desde 2012 a casa é a sede da Fundação José Saramago, o único Nobel de Literatura da língua portuguesa.
3O que observar
- As pontas de diamante: compare as de baixo, originais, com as dos andares de cima, reconstruídos.
- As janelas: nenhuma se alinha perfeitamente com a vizinha.
- A oliveira em frente, trazida da Azinhaga, a aldeia natal de Saramago. Aos seus pés repousam as cinzas do escritor desde 18 de junho de 2011.

Documentado
A casa foi construída em 1523 para Brás de Albuquerque, perdeu os andares superiores em 1755 e foi reconstruída em 1983; desde 2012 abriga a Fundação José Saramago.
Fontes e créditos
Fundação José Saramago (história da Casa dos Bicos); Museu de Lisboa, Núcleo Arqueológico da Casa dos Bicos; Direção-Geral do Património Cultural, ficha do monumento.
Fotografias:
- Fachada de pontas de diamante da Casa dos Bicos com a oliveira em frente: Vernaccia, CC BY 2.0.
- A Casa dos Bicos com os andares originais no Grande Panorama de Lisboa em azulejos: RickMorais, CC BY-SA 4.0.
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