Você está na rua República de Uruguay, que durante séculos se chamou rua de Don Juan Manuel. O nome lembrava um morador real, Juan Manuel de Solórzano, e a lenda mais sombria da cidade colonial, que a tradição situa num casarão deste trecho, por volta do número 90.

1«Feliz de você, que sabe a hora em que morre»

Conta a lenda que Don Juan Manuel, rico e ciumento, suspeitava que a esposa o traía. Desesperado, invocou o demônio, que lhe ordenou sair à porta às onze da noite e matar o primeiro homem que passasse. Ele obedeceu: envolto na capa, perguntou as horas ao primeiro transeunte e, quando este respondeu «onze», cravou-lhe o punhal dizendo: «Feliz de você, que sabe a hora em que morre». Os crimes se repetiram noite após noite, até que uma manhã o morto era seu próprio sobrinho. Arrependido, confessou, e um frade lhe impôs como penitência rezar três noites ao pé da forca. Ao amanhecer da terceira, foi encontrado pendurado nela: segundo as versões mais difundidas, pelas mãos dos anjos.

2O homem real

Juan Manuel de Solórzano existiu. Chegou à Nova Espanha por volta de 1623 e foi homem de confiança do vice-rei marquês de Cadereyta, o que o pôs em conflito com os ouvidores da Audiência, que o mantiveram preso. Segundo os papéis reunidos no século XIX pelo conde de la Cortina, em 1641 ele amanheceu enforcado na Plaza Mayor.

Por trás do castigo divino, muitos historiadores enxergam um acerto de contas político.

3O que observar

  • A placa da esquina com o antigo nome da rua.
  • O casarão do número 90, que a tradição associa à história; o prédio atual é posterior.
  • Os portões de madeira e as janelas gradeadas da rua.
Placas da rua República de Uruguay e da antiga rua de Don Juan Manuel
A placa de azulejo lembra o antigo nome da rua.

Documentado

Juan Manuel de Solórzano foi um personagem real, protegido do vice-rei marquês de Cadereyta, em conflito com a Audiência e morto na forca em 1641, segundo os documentos reunidos pelo conde de la Cortina.

Tradição oral

Os assassinatos das onze da noite, o pacto com o diabo e a morte pelas mãos dos anjos pertencem à lenda.

Fontes e créditos

Luis González Obregón, «México viejo» (1891-1895); José Justo Gómez de la Cortina, conde de la Cortina, artigos históricos sobre Juan Manuel de Solórzano (século XIX); Artemio de Valle-Arizpe, «Historia, tradiciones y leyendas de calles de México» (1957).

Fotografias:

  • A rua República de Uruguay, antiga rua de Don Juan Manuel: Ivanmartinez, CC BY-SA 4.0.
  • Placas da rua República de Uruguay e da antiga rua de Don Juan Manuel: ProtoplasmaKid, CC BY-SA 4.0.

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